Partidos religiosos

Em meio à tragédia da pandemia da Covid-19, vemos aprofundar-se cada vez mais em nosso país as polarizações políticas e ideológicas. No âmbito religioso
a situação não é diferente. Dentro da Igreja Católica vemos surgir grupos radicais, que assumem posturas e discursos fundamentalistas, caindo num verdadeiro e
próprio fanatismo religioso e político. São grupos que se consideram “os verdadeiros católicos”, e acreditam estar agindo na estrita observância da sã doutrina da Igreja.
Mas, na realidade, não passam de uma versão atualizada dos velhos “fariseus” e “mestres da lei” do Evangelho, os ferrenhos adversários de Jesus. São grupos "apócrifos”, ou seja, na sua maioria não são reconhecidos por suas Dioceses, nem aprovados por seus Bispos. Simplesmente algumas pessoas se reúnem, fundam um “centro” ou “instituto”, registram um estatuto e seguem um caminho totalmente paralelo à vida eclesial e à hierarquia da Igreja. Em geral, esses grupos têm em comum uma profunda aversão ao Concílio Vaticano II, especialmente no que diz respeito à reforma litúrgica e à doutrina sobre o ecumenismo, que é a busca por diálogo e relações de unidade entre as igrejas cristãs, mas também se negam a refletir sobre os grandes problemas sociais e culturais do nosso tempo, como a desigualdade social, o racismo, o feminicídio, a homofobia, etc., temas levantados pela Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano. Com o argumento de combater as ideologias, esses grupos na verdade são totalmente ideológicos, e usam a fé católica e a doutrina da Igreja a serviço de seus interesses políticopartidários.
Esses poucos leigos que se acham mais  “iluminados” pelo Espírito Santo do que os legítimos Pastores da Igreja, desejam na verdade corrigir e converter o Papa, os Bispos e o clero; no entanto, sofrem de uma das mais graves doenças espirituais: a soberba.
Quem conhece a Sagrada Escritura sabe que isso não é novidade na história da Igreja. Os Apóstolos também enfrentaram o mesmo problema de divisões internas nas
primeiras comunidades cristãs, por causa desses “super apóstolos”, como chamou São Paulo (cf. 2Cor 11,5.13; 12,11). Eram “falsos apóstolos” que apareceram na comunidade de Corinto, querendo diminuir Paulo e assumir a liderança da igreja. É o que tentam fazer agora nas mídias sociais esses “super católicos”, “super pregadores”, e até alguns “super padres”, afrontando e desrespeitando a autoridade e o magistério dos Bispos do Brasil, que são os únicos pastores da Igreja Católica Apostólica Romana, legítimos sucessores dos Apóstolos de Jesus, em plena comunhão com o Papa Francisco, sucessor do Apóstolo São Pedro. Algumas décadas atrás, o grande teólogo J. Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, já nos alertava: “Hoje em dia existe o grande perigo de se dividir a Igreja em partidos religiosos que se agrupam em torno de mestres e pregadores. E então vale de novo: eu sou de Apolo, eu sou de Paulo, eu sou de Pedro, transformando o próprio Cristo em um partido”.

Pe. Eleandro Teles

 
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