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Bernadette

“Não lhe prometo a felicidade neste mundo, mas no outro”

Esta frase foi dita por Nossa Senhora para a menina Bernadette, durante a terceira aparição. Em vida a vidente sofreu inúmeras incompreensões, enfermidades e dores. Seu corpo permanece intacto e exposto, em Nevers, na França

Por Margô Segat

No dia 16 de abril comemora-se o Dia de Santa Bernadette, a menina que presenciou às 18 aparições de Nossa Senhora, em Lourdes, na França. Marie-Bernarde Soubirous, a Bernadette, nasceu em 7 de janeiro de 1844, filha mais velha do moleiro François e Louise Soubirous. Devido a um incidente, sua mãe não pôde amamentá-la e, por causa disso, por 18 meses viveu separada dos pais, na casa Burg, numa aldeia vizinha. Até os 10 anos Bernadette morou no moinho de Boly, onde a família trabalhava. Nesta época uma série de desgraças atingiu os Soubirous. As máquinas a vapor ameaçavam o trabalho artesanal do moinho, fato que provocava uma profunda crise financeira em Lourdes. O pai de Bernadette foi atingido por um estilhaço de pedra no olho, morre um irmão e o moinho em que trabalhavam foi vendido, com isso a família não podia mais pagar o aluguel da casa. Sem ter onde morar um primo oferece por caridade um cubículo que funcionou como cadeia.

Lourdes teve uma epidemia de cólera e Bernadette se salvou, mas passa a ter asma crônica. O pai virou jornaleiro, a mãe fazia limpeza e Bernadette cuidava dos irmãos e apanhava ferro velho. Nova desgraça, o pai é acusado de roubar dois sacos de farinha e vai para a prisão. Em 1857, para terem uma boca a menos para sustentar, a menina de 13 anos volta para a casa Burg, ainda sem saber ler nem escrever. Com dificuldade de entender o francês, pois só falava o dialeto, retornou para casa alguns meses depois, em janeiro de 1858, e entrou para a escola aos 14 anos.

Depois das aparições (entre 11 de fevereiro e 16 de julho de 1858), Bernadette finalmente conseguiu realizar o sonho de fazer a Primeira Comunhão e aprendeu a ler e escrever. Devido à grande quantidade de pessoas que iam até sua casa para vê-la, Bernadette foi convidada a entrar para o internato no hospital de Lourdes, onde cuidava dos doentes e estudava. Quatro anos depois das aparições, seis interrogatórios e uma ampla investigação, comprovou que Nossa Senhora apareceu mesmo para Bernadette, na ocasião foram reconhecidas sete curas. Nesta época Bernadette adoece e a pneumonia faz com que receba a unção dos enfermos. Na inauguração da santa da gruta de Lourdes, com 20 mil pessoas presentes, Bernadette surpreendeu ao dizer que não reconhecia a imagem como a verdadeira. Neste dia decidiu ingressar na Congregação das Irmãs de Nevers.

Em 1866 deixa sua terra natal e vai para o convento de Saint Gildard de Nevers. Lá faz um relato das aparições para comunidade e se recolhe no silêncio. Sofreu perseguição da madre “não é boa para nada!”, dizia a superiora. Dias depois Bernadette está prestes a morrer e recebe a santa unção novamente. Depois dos votos passa a ser ajudante da enfermeira-chefe – de doente passa a ser a enfermeira-chefe por três anos. Em 1873 adoece novamente e recebe mais uma vez a santa unção. Dois anos depois seu estado de saúde fica ainda mais complicado e devido à asma crônica sofre dores alucinantes no peito, acompanhadas de vômito de sangue. Sofre um aneurisma e com problemas no joelho é obrigada a andar de muletas até que uma tuberculose óssea a paralisa completamente.

Seu corpo era uma verdadeira chaga e então é ministrada pela quarta vez a santa unção. Dois dias antes de sua morte confessa “sinto-me moída como um grão de trigo...” e depois acrescenta: “nunca pensei que fosse sofrer tanto para morrer”. Bernadette faleceu na quarta-feira da Páscoa, dia 16 de abril de 1879, com apenas 35 anos. Seu corpo permanece intacto e está exposto até hoje na capela do convento Saint-Gildard, num relicário de vidro.

A primeira exumação do corpo, em 1909, para fins de beatificação e canonização de Santa Bernadette comprovou que ele permanecia intacto. Dez anos depois é realizada a segunda exumação e percebe-se o mesmo estado de conservação. Quarenta e seis anos após a sua morte, o corpo de Bernadette é exumado pela terceira vez. A autópsia revela perfeito estado dos órgãos internos, com alto grau de conservação do fígado, órgão mais putrescível do corpo humano. Bernadette é beatificada em 1925 e canonizada em 1933, pelo Papa Pio XI.

Presença de Bernadette em Lourdes

A Igreja Santa Bernadette foi construída em 1986 em forma de anfiteatro, com capacidade para acolher cinco mil pessoas. Está edificada na margem esquerda do Rio Gave, no local onde Bernadette viu a Aparição pela última vez. Aos sábados à tarde, é celebrada a missa internacional dos jovens.

A história das aparições pode ser conhecida no Museu de Santa Bernadette onde encontra- -se numerosos documentos e fotografias, a diversos objetos que pertenceram à santa, desde o caderno de catecismo aos livros de preces, roupas e calçados. A vida de Bernadette é retratada no Museu de Cera de Lourdes, em tamanho real.

A Capela de Santa Bernadette, localizada na rampa que dá acesso à Cripta, é utilizada diariamente, durante as peregrinações, para a celebração de missas destinadas aos doentes.

Uma das três acomodações do Santuário de Lourdes, que recebem doentes do mundo inteiro, chama-se Hospital Santa Bernadette. Igreja São Pedro (destruída em 1905), onde Bernadette foi batizada conserva a pia batismal.

A primeira aparição

Em 28 de maio de 1861 Bernadette relata, por escrito a primeira aparição:

“Estava a apanhar lenha à beira do Gave, com duas outras meninas. Elas atravessam o ribeiro; começam a chorar. Pergunto-lhes por que é que choram. Respondam-me que a água está fria. Peço-lhes que me ajudem a lançar umas pedras para passar sem me descalçar; respondem-me que faça como elas. Então, vou um pouco mais longe para ver se posso passar sem me descalçar. Não posso. Volto de novo à gruta para me descalçar. Ao começar ouço um ruído. Viro-me para ver o prado. As árvores não mexem mesmo nada. Continuo a descalçar-me. Ouço o mesmo rumor. Levanto a cabeça e olho para a gruta. Vejo uma senhora vestida de branco. Tem um vestido alvo e um cinto azul e uma rosa amarela em cada pé, da mesma cor da corrente do terço. Ao ver tal coisa, esfrego os olhos, penso ter-me enganado. Deito a mão ao bolso, encontro o meu terço. Quero fazer o sinal da cruz mas não posso levantar a mão à testa, pois ela descai. A aparição faz o sinal da cruz. A minha mão treme, mas tento fazê-lo. E faço-o. Rezo o terço a visão faz passar as contas, mas não mexe os lábios. Quando acabo de rezar, a visão desaparece repentinamente. Pergunto às outras duas meninas se não viram nada: dizem-me que não.”

*Dica de livro e filme: Uma canção para Bernadette.